4.2.09

Do sentimento de criar uma baixa literatura, fora dos livros

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Na primeira versão deste texto eu afirmava categoricamente que Fabio Morais era um escritor frustrado. Ele me convidou para uma cerveja. Eu enchi o copo dele, ele encheu o meu, brindamos e Fabio Morais me jogou a cerveja na cara enquanto pisava no meu pé, sob a mesa. Frustrada é a sua avó, me disse. Limpei o rosto, pedi gelo ao garçon, para revestir o dedão do meu pé, e discutimos o assunto. Repito: frustrada é a sua avó. Eu sou apenas um ser sem talento, Fabio Morais me disse.
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Fabio Morais é um ser sem talento. Todos os modelos arquetípicos de talento, que servem de baliza para que os jovens assumam uma vida adulta qualquer, são inalcançáveis para Fabio Morais. Por um motivo muito simples: Fabio Morais é levemente medíocre. E os medíocres são preguiçosos para forçar um nado contra a corrente. Mas, segundo o artista, ele não se aceita como um loser. Disse-me que isso é coisa de americano: é muito fácil e cômodo ser loser lá na terra do Obama. Faz parte do american way of life ser um loser. Aqui, não tem essa não. Chego à conclusão que a obra de Fabio Morais é a afirmação de que os medíocres têm sim todo o direito de tentar. E, como são medíocres, não precisam seguir os modelos estabelecidos de talento. Fundam os seus.
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Por e-mail, perguntei a Fabio Morais de onde ele tinha tirado essa ideia. Ele me respondeu que ela estava no ar. Cada um respira o ar que quer. Veja só o Duchamp, disse-me Fabio Morais, ele passou a vida fazendo o melhor que pôde. Eu também levo a vida fazendo o melhor que posso. Eu e Duchamp estamos empatados.
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Deduzi que Fabio Morais não tem o menor talento para a performance. Então, escreveu O Performer. Do mesmo modo, é um escritor de quinta. Então, fingiu em Minha 6ª Exposição Individual. Continuou fingindo em Porque tudo começa numa comunicação visual. E não para de fingir, nem em Fabio Morais por Fabio Morais, seus textos críticos para esse Catálogo Raisonné. É só ir clicando, aí atrás.
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É isso mesmo?, perguntei a Fabio Morais, na plataforma da estação Liberdade. Mais ou menos, respondeu. Se não tenho talento para nenhum dos modelos de talento que me foram apresentados, não sou Abramovic, nem sou Joyce, saio debaixo deles e fico do lado de fora da festa, no quintal, sem modelo. Ao fazer algo neste lugar onde não há modelo, crio o meu. Pequenininho, mas meu. Um obelisco-anão.
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A porta do metrô se fechou e percebi que eu havia esquecido de entrar. O trem levou Fabio Morais, para encontrarmo-nos na Sé.
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Acredito que criar uma literatura fora dos livros pode significar criar uma literatura sem suporte, efêmera, desaparecível. Como criar uma literatura performática, que vive ou na memória ou na documentação, misturando o campo literário ao campo plástico. Ouso acreditar que Fabio Morais escreve para morar em pessoas, não em livros. Tudo o que escreve é uma enorme autobiografia in progress, sem livro, sem estreia. Cria lendas.
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