4.2.09

Do sentimento de não te sentir

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Neste último texto crítico, optei por transcrever uma breve conversa que tive com Fabio Morais, gravada em meu iPod.
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(Eu, Fabio Morais, crítico) - Para quem você faz tudo isso?
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(silêncio)
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(Fabio Morais, artista) – Para mim.
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(Eu, Fabio Morais, crítico) – Somente para você? Não seria egoísmo?
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(Fabio Morais, artista) – Artista é egoísta. Essa é nossa forma de atingir o outro. Calcando na gente mesmo é que cutucamos o outro.
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(Eu, Fabio Morais, crítico) – Ah, então existe um outro! Faz para os outros, também.
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(Barulho de um avião passando)
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(Fabio Morais, artista) – Sim, é lógico. Sempre que termino um trabalho, ponho um tênis e vou ao supermercado comprar pão integral, tenho a sensação de que o trabalho que eu acabei de acabar foi feito para cada pessoa com a qual eu cruzo na rua, para a caixa do supermercado, para todo mundo que está no ônibus que acabou de cruzar o farol, para todos os que estão empilhados nos andares daquele prédio do final da avenida. Somente para eles. Da freira ao assassino. Sem exceção. Para todos eles.
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(silêncio)
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(Eu, Fabio Morais, crítico) – Isso não seria um pouco romântico?
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(Fabio Morais, artista) – Romantismo é um termo besta. Quer dizer tudo e não quer dizer nada. Palavra fácil de ser usada.
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(silêncio)
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(Fabio Morais, artista) – Talvez a vontade de ser artista nasça de uma vontade de abordar todas, absolutamente todas as pessoas do planeta. Mas se eu conseguisse abordá-las, cutucasse as mais de seis bilhões de costas que há no mundo e todas elas se virassem para mim, esperando o que eu teria para dizer, sinceramente, eu não teria o que dizer. Não saberia escolher o que dizer. Não dominaria idiomas. Não lido bem com pessoas a esse ponto. Gandhi e Mussolini se sairiam melhor. Fazendo um trabalho de arte é como se eu cutucasse as mais de seis bilhões de costas que há no mundo e saísse correndo, deixando a obra em meu lugar, para que ela diga algo.
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(silêncio)
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(Eu, Fabio Morais, crítico) – Como criança que estica o braço atrás das costas do amigo, cutuca seu ombro, o ombro do lado onde não há ninguém, só para o amigo ter a sensação de que foi cutucado por ninguém?
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(Fabio Morais, artista) – Sim, como criança que faz isso. Sempre como criança. Sempre.
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