4.2.09

Do sentimento de fazer o mundo caber

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Há uma classe de pessoas que, quixotescamente, tenta fazer o mundo caber. Provavelmente, porque já percebeu que ninguém, em sã consciência, cabe no mundo. Esse tipo de gente se espalha em muitas subdivisões e subgrupos. Há os verborrágicos: dobram as palavras, entortam a sintaxe, rimam o que é irrimável e quase conseguem dar conta do complexo, no campo do blá blá blá. Há os que dão a volta ao mundo num balão. Num veleiro. De bicicleta. A nado. Caminhando. Há os que viram delinquentes e empurram velhinhas em poças d’água. Creem que quebrar normas pode ser uma forma de aumentar o espaço onde a vida se realiza. Ou que, destruindo o outro, pode-se repousar a perna em sua poltrona. Há os que se conformam com o universo dado na pequena paisagem do outro lado da rua. Passam a vida vendo A Banda passar na janela. Acenam, cantam junto, piscam para o trombonista. Mas Chico não vem.
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Certa vez, Fabio Morais deixou escapar, numa conversa entre nós, que gostaria de ser desenhista de mapas. Assim, poderia, além de tudo, criar uma cidade fictícia, inventar um rio que cortasse o mar e desaguasse no continente.
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A editora tocaria sua campainha e lhe convidaria a desenhar um atlas. Seria mais uma ocasião em que Fabio Morais apanharia a mala que mora em cima do guarda-roupa, separaria dez cuecas, cinco pares de meias, duas calças jeans, sete camisetas, dois moletons, um casaco, dois pares de tênis, três bermudas, um havaiana, escova de dentes, pasta, sabonete, aparelho de barbear, desodorante, xampu, caderno, caneta, livros, aparelho de MP3, carteira, guia turístico etc e poria-se a viajar, aquarelando cadeias de montanhas. Os Andes, o Himalaia, o Grand Canyon, a Serra da Cantareira,
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o Copo d’Água, o Encontro de Mares, os Oceanos, A Chave de Casa, a Oferenda a Iemanjá para um Feliz Ano Novo, o Alguém, a Festa, o The Earth and Man, o Sampa. É só ir clicando, aí atrás.
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Ao leitor deste texto crítico que, n’algum dia, estiver frente a um destes trabalhos de Fabio Morais, não se esqueça de apertar o cinto, circular nos corredores somente quando o sinal de alerta estiver apagado, botar o que não cabe de si na asa da esquerda e respeitar o aviso de que convém não fumar.
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