11.4.10

Então, vou contar...

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Force a maçaneta e entre. É uma exposição de: desenho. Mas, tão logo você finque os pés no chão diante do primeiro desenho (pronto para degustar as linhas, o branco do suporte que elas reafirmam, os planos, os acidentes da tinta, a trapaça da perspectiva), você sentirá seu corpo querendo ir. Ir? Talvez seja aquela fuga pronta sob seus pés, mas não se pergunte. Vá. Sorria, Cheshire Cat, você não será filmado, será desenho animado.

Teus passos te levarão por caminhos que tateiam muros, trepe, tome vento na cara, corra, suba, desça, ande, fuja. Pule a cerca, beire-a. Salte. Espante os pássaros. Arranque a blusa, amarre-a e desça por ela.

O quê? Você continua com os pés fincados no chão? Parado? Ah, bom, somente seus olhos se movem... Era a isso que eu me referia. As linhas de um bom desenho costumam capturar o olhar forçando que ele escorra sobre elas, como gota de chuva em fio de alta tensão inclinado. Foram teus olhos que tropeçaram naquele degrau, foi teu olhar que escapou pela janela deixada aberta e é teu olhar que te hasteou bandeiras de rendição.

Ufa.

Teu olhar deu a volta a um mundo. Agora ele está resistindo, não quer se soltar do desenho, como criança que faz birra porque os pais anunciaram que é hora de ir embora. Ele está lá, escondido atrás da torre. Parece que teu olhar não é mais teu. Nunca foi, paciência, é para isso que serve o olhar, para ser levado por revoadas de pássaros. Arte nos faz lembrar dessas coisas. Vire a chave e saia.
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Fabio Morais,
inverno chuvoso de 2009