23.4.10

Se um dia, pela primeira vez na vida, eu for a um analista, ele terá muito trabalho até chegar à conclusão de que esta incompletude que sinto na vida está ligada ao fato de eu nunca ter conseguido completar os álbuns de figurinhas que colecionei na infância. Sempre faltava a figura 27 ou 63, ao mesmo tempo em que eu tinha nove figuras 18 repetidas. Obviamente que isto, dentro do meu universo de 9 anos de idade era um problema insolúvel. Eu precisava administrar o excedente, seja trocando-o com o Roberto da quinta série, seja decorando as paredes de casa, e ainda pensar em como adquirir as figuras faltantes, fato ligado ao acaso. Aos 9 anos de idade eu ainda não tinha eleito o acaso como partner.
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Décadas depois, com a idade agregada, percebo-me infantilmente ansioso com o projeto COLEÇÃO pois, nele, pela primeira vez, poderei eu mesmo escolher as figuras que quero, carimbá-las, empacotá-las, correr para casa e, sentado no tapete da sala, abrir o pacote e descobrir quais as figuras que vieram desta vez, e perceber ainda que pude ser, ao menos desta vez, aquele acaso com quem eu me relacionava quando criança.
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É nesta alternância de acasos e escolhas que eu te coleciono, pois há em ti minha COLEÇÃO POR FAZER. Certamente vem daí minha curiosidade em viver o AMOR, já que minha COLEÇÃO de figurinhas nunca me elucidou as reticências que sempre vinham depois de Amar é...
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Fabio Morais
Verão Chuvoso de 2008


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