1.5.10

ar

por Fabio Morais

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Os desenhos Cada um tem a paisagem que merece são música tocada nas teclas-papel-color-plus-pretas e nas teclas-caneta-de-tinta-brancas de um piano que executa uma melodia cotidiana neste teclado que é apenas uma interface já que internamente o piano é um instrumento de cordas que se esticam e vibram em linhas que não se tramam e se tocam se trocam se soltam encontram-se se combinam se cansam separam-se soltam-se e flanam como flana um pensamento fabricando imagens de tacos portas tapetes cabides cobertores lâmpadas livros linhas de contorno de uma cama que se desprendem do que é cama para dar início à linha de contorno que é uma janela que ainda cede sua linha de contorno para a prolongação da varanda de uma rede preta que espalha-se pelo chão esticando-se e tensionando-se para tornar-se uma linha que é a continuação do desenho da luminária japonesa ou de uma veia do braço que chega à mão que desenha em negativo um contorno sem volume através desses fios de luz que não conseguem acender totalmente esse escuro que vai apagando a tarde até desligar mais esse dia útil impondo uma paz estranha ao fim dessa jornada numa hora tão confusa e barulhenta nesta cidade lá fora que é gentilmente impedida de invadir a delicadeza destas linhas brancas traçadas em cima do breu pouco iluminado por um desenho que ilumina somente a si mesmo na penumbra do plano liso do papel que se fosse branco lembraria uma pista de gelo a ser patinada pelo grafite mas como é preto assemelha-se à falta de um fundo retangular de uma das redes que cortam o espaço e não amparam ninguém pois sustentam ao mesmo tempo a queda e o abismo.

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⎻Fui alfabetizada ao mesmo tempo em que aprendi música. Eu mal lia palavras e já lia partitura, disse-me Adriana. Tocava piano. Parei, completou.

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a queda e o abismo. O chão rege o desenho perspectivo ocidental. Cada um tem a paisagem que merece desmancha o chão transformando-o noutros objetos (é como desfazer uma blusa de crochê ao fazer um cachecol) e, neste empréstimo, ele desaparece. A perspectiva passa a se dar no escuro. É o ar quem a define.

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⎻Chama-se De Igual para Igual, disse-me Adriana, sobre o vídeo. ... anima ..., foi uma palavra que repetiu, algumas vezes.

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o ar quem a define. Ele possibilita as conversas. Sobre o ar, as falas soltam as palavras, publicam-nas. No vídeo, que inclusive é luz acesa no escuro, as chaleiras sopram, sussurram e depois discutem. Dentro delas, a água se estica em ar, faz-se grito, expansão que é expressão e ex-silêncio, é assim a comunicação das chaleiras. Toda voz solta seus vapores. A imagem vai sendo preenchida, mesmo sem jamais ter estado vazia: se a câmera filmasse nada, focaria o ar sendo evidenciado no sopro que soma-se à espessura do espaço, que cresce, pressiona a lente e embaça. Neblina não é ar. Nem vapor é ar. São água sem chão nem repouso que usa o ar como recipiente.

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⎻Não penso que sou artista, não penso nisso: faço, disse-me Adriana. Ah, Adriana, eu também não me sinto artista, faço. Sinto-me mais um operário das minhas ideias do que artista. Para que pensar em ser, se é o fazer que nos põe nessa via, não?, foi o que não respondi para Adriana, no calor da hora.

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o ar, como recipiente. No ar, as redes repousam. São mobília, curva aérea na arquitetura da primeira casa brasileira. Elas nos sustentam no ar, esse sonho arquetípico humano, de despregar-se do chão.

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⎻Prefere com açúcar ou adoçante, Adriana me perguntou, oferecendo-me café numa xícara de louça branca com asas vermelhas de borracha (asas no formato de asas reais, de pássaros, que voam no ar). Sem nada, respondi.

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air

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By Fabio Morais

Translation by Juliana Farias

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The drawings Each one has the deserved landscape are music played on the black-color-plus-paper-keys and on white-paint-pens-keys of a piano that executes a quotidian melody in this keyboard that is only an interface since internally the piano is an instrument made of strings that stretch and vibrate in lines that don’t weave don’t touch don’t exchange don’t untie themselves meet each other combine each other get tired of each other get separated unfasten from one to another and lounge as lounge a thought making images of parquet blocks doors carpets blankets lamps books outlines of a bed that disengage themselves from the supposed bed to begin the outline which is a window that still yield its own outline to the balcony extension of a back net that spreads itself over the ground stretching tensioning itself to become a line that is the Japanese luminary drawing continuity or an arm vein that gets close to the hand that draws as negative a no voluminous outline through these light threads that can’t totally light this dark that keeps switching off the afternoon until turns off one more work day establishing a strange peace at the end of this journey in a so confused and noisy moment in this city outdoors that is gently impeded of invading this white lines delicacy sketched over the poorly lighted up pitch by a drawing that lights up only itself in the penumbra of the paper’s smooth plain that if it was white would remember an ice rink to be skated by the lead but because it’s black seems to be an absence of a rectangular background of the one of the nets that cut the space and don’t support anyone because sustain at the same time the fall and the abyss.

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-I was taught to read and write at the same time I learned music. I barely read word and already read music, said Adriana to me. I used to play the piano. I stopped, she concluded.

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the fall and the abyss. The ground conducts the occidental drawing in perspective. Each one has the deserved landscape takes the ground to pieces transforming it in other objects (it’s like rip up a crochet blouse to make a scarf) and, in this lending, it disappears. The perspective begins to happen in the dark. It’s the air that defines it.

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-It’s called Between Equals, said Adriana to me, about the video. … anima (a Latin word that means ‘soul’), a word that she repeated, some times.

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the air that defines it. It makes the conversations possible. Above the air, the speeches release the words, make them known. In the video, which is light in the dark, the teakettles whiffle, whisper and then wrangle. Inside them, the water extends itself in air, shout fell, expansion that is expression and ex-silence, that is the way the teakettles talk. Every voice blows its steams. The image is being filled, even if it was never empty: if the camera shot nothing, it would focus the air displayed in the blow that adds itself to the space thickness, that gets bigger, presses the lens and dull. Fog is not air. Not even steam is air. They are water without floor and rest that use the air as recipient.

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-I don’t think I am an artist, I don’t think of that: I do, said to me Adriana. Ah, Adriana, I don’t feel myself an artist as well, I do. I feel myself more as a my ideas workman than an artist. Why think about being, if the making is what put us here, no?, it was what I didn’t answer to Adriana, in the heat of the moment.

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the air as recipient. In the air, the nets rest. They are furniture, aerial curve in the first Brazilian house architecture. They support us in the air, this archetypical human dream, of unhooking from the ground.

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-Do you prefer with sugar or sweetener? Adriana asked, offering me a coffee in a white porcelain cup with red rubber wings (wings like real wing, of birds, that fly in the air). None of them, I answered.

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