7.11.10

Lygia Mostra a Língua

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“Mas o livro que lemos não é o livro que ele pensou que estava escrevendo. (...) Eu responderia que os escritores nos ensinam mais do que sabem.”


por Elizabeth Costello, em A Vida dos Animais, J.M. Coetzee,

tradução de José Rubens Siqueira

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―Não. Vou sozinho. Gosto de ver exposições calado, sem quebrar silêncios para comentar o que acabo de ver.


Desligo o telefone.


O segurança fuça minha mochila e pergunta porque tenho tantos livros. São meus, respondo. Vai distribuir? Não pode distribuir lá dentro, ele pergunta e afirma. São meus, insisto. Clec, a catraca contabiliza-me como mais um entre o um milhão almejado. O detector de metais apita. Pedem que eu guarde a mochila no guarda-volumes. Obedeço.


Lygia está calada à minha frente, sem gritar tudo o que Samuel Beckett fala no segundo andar. Da língua, ele expele idioma, ela, sangue: duas circulações. Aqui embaixo no térreo, o ar me parece o de uma festa que acabou porque alguém proibiu ou, simplesmente, porque séculos acabam. O playground sueco de Palle Nielsen, o teatro venezuelano ao ar livre de Jacobo Borges, os japoneses do Hi Red Center no hotel e a menesunda argentina de Marta Minujín, tudo impossível de ser agora: pelo hoje que mantém tudo isso como imagem; pelo preto e branco; pela cor desbotada emprestada à saturação de Jean-Luc Godard, que ainda vê distância entre regra e exceção. Juntando ontem e hoje, há no segundo andar a presença quase real dos Ninhos de Hélio Oiticica, onde não entro por uma assepsia temporal minha. Eles estão rodeados por um bombeiro.


Estou calado em frente à língua sangrada de Lygia. David Claerbout mostra-me, logo ali na frente, que é possível me aventurar por dentro de uma imagem. Por isso, quando eu chegar ao segundo andar, sonharei penetrar na casa de shows desativada e ouvir o mesmo Clash da minha adolescência, mesmo sabendo que o que me separa desta imagem de Anri Sala é uma película tão densa quanto a da água do Rio da Prata sepultando assassinatos de Estado, na fotografia de Marcelo Brodsky, também no segundo andar. Claerbout gruda-me no banco por quase uma hora e me rendo ao seu “vídeo”, mesmo detectando nele artifícios estetizados, clichês fáceis e detestáveis, tudo feito milimetricamente para emocionar-me. Sou pateticamente emocionável: uma obra que me mostra o artifício por onde qualquer um me engana, me fazendo desentender-me comigo mesmo. O que me leva até Claerbout é um corredor que me faz dar as costas para as festas sueca, venezuelana, japonesa e argentina. Nele, as garotas argentinas de Alessandra Sanguinetti estão na contra-mão do playground sueco, recriando a vida que ainda não viveram: como o durex recriando de forma torta a perfeição da lâmpada quebrada, de Carlos Bunga, no terceiro andar; ou como o chacoalhar dos vidros de Amelia Toledo, que recria internamente na estrutura orgânica e efêmera das bolhas de sabão, uma semelhança desajeitada com a forma externa perfeita, que me emocionam no segundo andar. Pré-rafaelitas e desajeitadas, parece que as meninas de Sanguinetti se preparam para um dia protagonizarem as fotografias de Nan Goldin. Cobertas de terra ou como Ofélias, as garotas argentinas já ensaiam a morte de Cookie Mueller.


O sangue de Lygia tem a mesma ausência de cor das bandeiras hasteadas por Wilfredo Prieto na lateral externa do prédio. Lembrarei de vê-las quando eu for embora e, quando chegar em casa, repararei no catálogo o grande número de artistas da exposição que não vivem no país onde nasceram. Talvez por isso as bandeiras descoloridas tenham sido hasteadas ali. Elas também não têm o vermelho explodido onde Mira Schendel escreveu QUE BELEZA, o estandarte que me aguarda no segundo andar. O eixo vermelho que me leva do escorrimento de Lygia à explosão de Mira, passa por ruas do Rio de Janeiro ensanguentadas por um jorro de sangue falso, lançado de um carro pipa. Vejo uma mulher, no vídeo de Ronald Duarte, que vocifera contra a água vermelha que se empoça na sarjeta. Tintas no asfalto só serão admitidas por ela para pintar a bandeira brasileira, que não admite o vermelho, na próxima Copa do Mundo.


A mesma mulher que vocifera no vídeo esteve no quase linchamento de Flávio de Carvalho em 1931, na rua Direita. Depois de um dia de trabalho empurrando o mar de Cildo Meireles, a mesma mulher está em pé na rua, exausta, provavelmente esperando transporte público na vídeo instalação de Chantal Akerman. Neste momento, ela pode ser uma das seguranças desta exposição e em janeiro próximo entrará no pavilhão desfilando uma bolsa cara na SP Fashion Week, como me recorda Jimmie Durham em sua sala. Quando eu for embora e estiver no ponto de ônibus, parado na rua tal qual os “personagens” de Chantal, lembrarei que preciso estar atento, pois há momentos em que essa mulher que vocifera contra, pode aparecer em mim. E ela mal sabe do sangue que escorre da língua de Lygia; da cera que escorre para o chão sem conseguir calar o gesto do pianista, de Tatiana Blass; do pó de giz que pousa no chão pela ação repetitiva de calar a lousa apagando-a para a próxima escrita, de Cinthia Marcelle: tudo diálogo que só se trava na alternância de um calar-se para que o outro fale. Tudo questão de optar por silenciar-se. De escorrimento, empoçamento, queda em relevo. E de gravidade, que Tatiana Trouvé entorta e congela, calando no ar o movimento pendular, dando-me a palavra.


Percebo que a mulher que vocifera contra o falso sangue nas ruas do Rio, pode ter passado por ali, errado o plural e calado a obra de Nuno Ramos que, junto à de Wilfredo Prieto, está entre as mais cromáticas do pavilhão, com sua bandeira branca, sem cor. Mas a mulher não vociferou contra o macaco que por meses foi recentemente empregado num estúdio da Rede Globo, numa novela onde o animal representava um pintor de gestos e explosões cromáticas, calando Pollock.


Ao chegar ao terceiro andar, vejo que Lygia emprestou seu vermelho à saturação de Miguel Rio Branco e Nan Goldin, entre os quais a minha percepção arbitrária instala o bólide em homenagem a Cara de Cavalo. Lygia também coloriu a bandeira ferida sobre o território da liberdade, de Antonio Dias; as fitas contra a AIDS espalhadas pela paisagem da África do Sul nas fotografias de David Goldblatt; e o fio com o qual Paulo Bruscky interditou uma ponte em Recife nos anos 70. Dou-me conta de que Lygia realmente se espalhou por toda a exposição, como seu próprio Divisor, que é tão arquitetônico quanto este prédio.


Terminando meu itinerário pela exposição, sinto a vigilância de Lygia que intimou meu olhar e me encarou olho no olho esse tempo todo, pedindo re ou apenas conhecimento, como as mulheres de Zanele Muholi e as de Juliana Stein, ou as várias obras distribuídas pelo pavilhão que documentam depoimentos. E o par de olhos de Lygia também é iluminado por uma luz fria de backlight do mesmo modo como, no último andar, são iluminados os um milhão de par de olhos de Gutete Emerita, na sala de Alfredo Jaar, onde obviamente sou tentado a roubar um slide e, em seguida, penso: essa mulher não pode mais uma vez ser roubada.


Chego à sala de Artur Barrio. Driblo a segurança, roubo uma das imagens das trouxas ensanguentadas e corro em disparada até o térreo onde roubo o backlight de Lygia. Com uma imagem em cada braço, saio do prédio, acho a bandeira brasileira descolorida e instalo Barrio e Lygia encostados na base de seu mastro, como um monumento ao vermelho-sangue que estranhamente falta à bandeira do país onde nasci.


Lygia está calada e olho para ela calado. É difícil sair de sua frente e ver o resto da exposição. Cada idioma tem O seu Grito.


Resgato de volta minha mochila. Para sair do prédio, não sou revistado. Indo embora, é impossível não imaginar Antonio Vega Macotela saindo da prisão mexicana incumbido de realizar o desejo de um dos presos, lá fora; e também não lembrar do vídeo de David Claerbout, o da diarista que depois de limpar toda a casa anulando-se ao rés do silêncio, paralela ao dia que nasce lá fora, pega sua bicicleta e vai embora, voltando a ser alguém.

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