24.3.12

O conceito abravanado nasceu no seio na família abravanus-senor, responsável pelo primeiro e único camelô da história a ficar zilhonário. Mais tarde, desencadeou numa ramificação grande de criaturas bizarras, síndromes de Estocolmo, Portas da Esperança, Baús da Felicidade e Aracy de Almeida, maior cantora do Brasil, é coisa nossa.


Os primeiros pensadores que abordaram o tema, ainda no século de seu surgimento, largaram para lá canetas, teses, laptops e cátedras, embaraçaram-se em lantejoulas e ganharam as ruas. A última declaração de um deles: “as teses demoram demais e viver é coisa rápida” — e saiu em disparada, chacoalhando o pompom e berrando “quero ser bacante!”.


Algumas foram as bandeiras adotadas pelo movimento. Em todas, brilho e cor, substituindo os predominantes verde (desmatado) e amarelo (ouro roubado), do lindo pendão da esperança. E, no lugar do “Ordem e Progresso”, frase velha de um positivismo caduco que nunca deu muito certo na terra do “jeitinho”, houve várias versões, entre elas a “P(F)odem em Excesso”.


Explicar o conceito de abravanação é difícil de tão fácil. Deixando-se levar pelo fácil, na base do “para quê complicar?”, pode-se afirmar que a abravanação é um movimento. Claro que é. Das primeiras grandes conclusões embrionárias do embrião: mundo é movimento. Joga o braço para lá, joelho para cá, a pélvis acompanha e o movimento foi feito. E não importa o braço, o joelho ou a pélvis, importa é a ação e o movimento, como na linguagem chinesa. Talvez, assim, movimente-se também o pensamento e a sensação de mundo: dos movimentos mais difíceis.


Pesquisas subterrâneas em Oxford-Googles descobriram que o pensamento abravanado iniciou-se de antigas visões de mundo como “a alegria é a prova dos nove” (Seu Oswald), “gente é para brilhar” (Seu Maiakóvski), “a verdade é circunstancial” (Dona Fernanda), e “se está no inferno, abraçe o capeta” (sabedoria etílico-idílica popular): filosofia de academia em promiscuidade com filosofia de boteco. E, se há um menage à trois, mete-se também a filosofia de frase de caminhão. Esses conceitos do viver bem, sem recomplicar o que já é complicado, foram trabalhados no início por um grupo restrito de membros abranavados. Entre eles a Pastora Masta Corcia, membro-fundadora da percepção do conceito, atualmente vivendo em Nova York, onde tenta abravanar a egocêntrica e pré-fascista América de Bush. Também Rick Castro, outro membro fundador e disseminador, vivendo e abravanando em São Paulo, nas escadarias das Gazetas da vida.


Daí, face a um mundo paulistano sedento de cor e ludicidade, e a um mundo mundial onde as utopias coletivas rolaram ladeira abaixo (mas não as mini utopias — pelo amor de deus!), o vírus do conceito furou camisinhas conservadoras, espalhou-se, e ganhou fôlego.


Plasticamente, a abravanação segue uma corrente estética bastante antiga e arraigada à cultura local, talvez nascida na pré-história da Marquês de Sapucaí: o Alhos com Bugalhos. Barroco brasileiro que o diga. Seu Hélio que o diga. Dona Pequena Notável que o diga. Pablo, ícone da dublagem brasileira, que o diga. As aberturas setentistas do Fantástico que o digam. Flavio de Carvalho que o diga. Secos e Molhados que o digam. “Ó abre alas que eu quero passar” que o diga. E o Alhos com Bugalhos vão dizendo, cadenciados pelo “auxílio luxuoso de um pandeiro”.


Desviando a pesquisa para uma abordagem histórica, talvez seja possível encontrar paralelos internacionais, até mesmo contemporâneos, em relação ao movimento, à estética e à atitude pública abravanada. Porém, para esta Enciclopédia em Fascículos, deixou-se essa busca de lado. Muitos destes pseudo-abravanados são europeiamente tristes ou americanamentedonorte pop-forçados, levando-se a sério demais, o que é contrário à abravanação ao sul do Equador. “Levar-se à sério é cultuar demais o próprio umbigo”, declarou certa vez um antigo teórico da causa abravanada, “e umbigo não serve para nada, até para piercing é uó!”, imendou e saiu em disparada cantando o hino “The books on the table”, para fazer pose em frente ao Obelisco.


Desde o início a abravanação cruzou fronteiras e culturas e já adotou seus neologismos logo de cara: a inglesa abravanation, a espanhola abravanación, a francesa abravanacion, a italiana abravanaccione, a russa abravanaskaia, a japonesa abra-wana-shon, a alemã abraravanashultz, a tupi abravanacuera e a afro abravanagô. Especialistas da abravanação diplomática, instância extra-oficial do Itamarati, ainda ousam que o risco de voltar americanizada é descartado na questão abravanada. O poder do conceito “Alhos com Bugalhos” é coisa nossa.



Fabio Morais

2007



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