24.3.12

Vive-se em meio a objetos físicos que, friccionados, vibrados, entrechocados, entre outros ados, produzem som. Porém, vai-se a uma exposição, ali na pequena sala da XV de Novembro, e passa-se a considerar que: vive-se ondas sonoras que, para espraiarem-se, inventam objetos. Primeiro, o som. Depois, o som materializa o instrumento, ou desinstrumento. O físico vai ficando complexo por culpa dos sons que o solidificam.

Olha-se para o peito com o olhar alterado de quem descobre que o clássico som do coração foi sempre mal interpretado. Não se trata do som do coração, mas sim do coração que o som materializa para propagar-se e ser ouvido no estetoscópio. Nesta concepção invertida, na contramão do físico mas na mão do som, onde esse texto nasce dublado porque deveria ser voz, primeiro soou o som, depois veio o estetoscópio curioso para ouvi-lo e, só em seguida, som e estetoscópio bolaram o coração. O ser humano é o último da cadeia sonoro-produtiva, moldado com humor e cuidado para uma cacofonia específica, espécie de cortiço de diversos sons que resultou no desajeito do corpo.

Um artista ou outro apressa-se e, antes do som fabricar o objeto físico que necessita para barulhar-se, convence o som de que ele já se basta, para que mais desinstrumentos?


Fabio Morais
Outubro de 2011