12.7.22

     




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16.2.22

America, 2022

acrílico 2 mm cortado a laser
série de 7 peças
edição de 3 + p.a.



Latin America
15 x 49 cm

Para abordar recorrente discussão da relação entre palavra e imagem‭, ‬linguagem e realidade, a série America lida com os três principais idiomas da colonização americana‭ ‬‮–‬‭ ‬português‭, ‬espanhol e inglês‭ ‬‮–‬‭ ‬a partir do fato de que‭, ‬se as línguas europeias foram um dos instrumentos de colonização‭, ‬hoje‭, ‬com o domínio estadunidense sobre o continente‭, ‬o inglês assume o papel de idioma recolonizador‭. ‬

Nas obras‭,‬‭ ‬manuscritos rasurados‭ ‬‮–‬‭ ‬a maior violência gráfica que uma escrita pode sofrer‭ ‬‮–‬‭ ‬enfatizam o texto como imagem, ‬materializando-o de modo a pontuar que a linguagem‭, ‬e portanto a língua‭, ‬é algo físico, que instaura muito mais do que apenas discurso verbal‭.‬



gracias for teaching us about human rights and democracia
12 x 45 cm


no seas latinoamericano en español
não faça arte em português
12 x 47 cm


suas imagens nos violentam
tus imágenes nos exotizan
images tire us
18 x 54 cm


the armas are las línguas europeias
don't legalize your crimes in english
14 x 59 cm


tua lenguaje is not wrong
the defecto is in my imagem
14 x 41 cm


Writing in portuguese is
6 x 31 cm

Gostaria muito que você lesse, 2021

dimensões variáveis conforme arquitetura
adesivo preto fosco ou pintura sobre parede
edição de 1 + p.a.
(clique sobre as imagens para aumentá-las)


Gostaria muito que você lesse é uma série de 4 textos escritos na parede em linha única. Os textos demandam do público sua oralização, de modo que, em momentos indeterminados, vozes cúmplices podem ativar o espaço sonoro – diferente de um obra sonora que o ocupasse constantemente, em loop. 

A escrita de Gostaria muito que você lesse é cênica em dois aspectos. Primeiro, ao narrar cenas cujas imagens mentais são tratadas como um audiovisual interno a quem lê. Segundo, porque tanto a oralização quanto a leitura silenciosa instauram cenas. O encaixe dos textos na arquitetura e o tamanho das fontes dirigem os gestos do corpo leitor que caminha enquanto lê, gira-se em 180 graus, aproxima-se ou se afasta para enxergar. No espaço expositivo, a leitura individual, silenciosa ou em voz alta, é cênica e pode estar sendo assistida.




Acima, imagens do primeiro texto de Gostaria muito que você lesse, na exposição Cores, na Galeria Vermelho, em 2022 (foto de Filipe Berndt). Nessa versão, a linha de texto tinha 16,5 metros, ocupando 3 paredes em formato U. O texto é: 

Gostaria muito que você lesse este texto em voz alta, a partir daqui: Em volta da mesa, cada mensagem recebida nos celulares noticiava o avanço da devastação. Por toda a madrugada foram discutidos projetos cujas maquetes práticas e teóricas dobrávamos, de modo distraído, em guardanapos. Entre guimbas e copos vazios, amanheceu uma cidade de origamis que parecia a demolição de Brasília.



Acima, imagem do segundo texto de Gostaria muito que você lesse, na exposição Cores, na Galeria Vermelho, em 2022 (foto de Filipe Berndt). Nessa versão, a linha de texto tinha 16,5 metros, ocupando 2 paredes em formato L. O texto é: 

Gostaria muito que você lesse este texto em voz alta, a partir daqui: Disse três. Tínhamos ouvido alguém dizer dois, após, do nada, dizerem um. De longe, disseram quatro e, de outro continente, eu disse cinco, pouco antes que você dissesse seis. Da próxima década, alguém antecipou sete e só então pudemos dizer oito. Um dia, dirão dez e, então, direi


Acima, imagem do terceiro texto de Gostaria muito que você lesse, na exposição Cores, na Galeria Vermelho, em 2022 (foto de Filipe Berndt). A linha de texto se inicia no meio da parede e termina no canto, tendo pouco mais que 8 metros nessa versão, em um tamanho de fonte que exige aproximação e caminhada. O texto é: 

Gostaria muito que você lesse este texto em voz alta, a partir daqui: Entramos no primeiro carro que nos resgatou e, enquanto abaixávamos os vidros para respirar o país pela última vez, alguém comentou que era estranho estarmos em fuga nesse momento em que não havia nada que pudesse chegar a seu destino. De dentro do carro, a palavra destino escapou e correu mais depressa do que os três quilômetros por hora desta leitura: o destino precisava estar grafado lá na frente, no final deste texto, para que agora que a leitura aproxima-se do fim, se possa ler que esse país em fuga nunca chegou ao nosso destino.


Acima, imagem do quarto texto de Gostaria muito que você lesse, na exposição Cores, na Galeria Vermelho, em 2022 (foto de Filipe Berndt). A linha de texto termina na placa SAÍDA sobre a porta, tendo 4,5 metros nessa versão. O texto é: 

Gostaria muito que você lesse este texto em voz alta, a partir daqui: Mesmo entre escombros, resta obedecer a arquitetura. [Puxe alguém pela mão e saia.]

Cartazes para salas de cinema, 2021

100 x 70 cm
acrílico preto 3 mm cortado a laser
edição de 5 + p.a.
(clique sobre as imagens para aumentá-las)




Na série Cartazes para salas de cinema a cena e o audiovisual são abordados em placas de acrílico, altamente reflexivas, com letras recortadas a laser. As peças fazem um paralelo entre sua forma de matriz de estêncil – o vazado das letras permite ler o texto através do branco da parede – e a projeção cinematográfica, garantida pela quantidade de luz filtrada pela película e projetada sobre o branco da tela. Os textos das obras atuam visualmente sem respeitar a grade esquadrinhada da diagramação tipográfica, de modo que a escrita se torna a imagem negada pela inexistência do filme, supostamente anunciado no cartaz.

Drogaria, 2021

40 x 140 cm 
jato de tinta sobre papel algodão
edição de 5 + p.a.
(clique sobre as imagens para aumentá-las)



Drogaria mimetiza uma prateleira de remédios. O desenho gráfico das caixas distribui textos que se adaptam às funções informacionais e seus lugares de praxe, nos modelos de embalagens. Textos curtos, de sentido imediato ou fragmentado, apresentam-se como informações na região de títulos, slogans e indicações de uso, enquanto textos de articulação estendida esboçam narrativas que saltam por vários lugares nas embalagens, ou concentram-se nas tarjas vermelhas e pretas.

Com várias vozes, entre líricas, narrativas e quase ensaísticas, em Drogaria a escrita se adequa ao espaço gráfico-físico das embalagens de remédios e a uma afinação sonora e rítmica que aproxima a obra de questões da poesia. Nessa cacofonia de vozes e assuntos, Drogaria procura criar mais uma atmosfera textual do que uma narrativa clara e linear, na qual as subjetividades - entre a intimidade e a macro-política - são assediadas por modelos de patologização e por tecnologias farmacêuticas.


(Clique sobre os detalhes abaixo para leitura)








De repente, 2021

145 x 21 cm (cada)
serigrafia sobre acrílico 10 mm
série de 3 peças
edição de 5 + p.a.
(clique sobre as imagens para aumentá-las)








Imagens da exposição Cores (2022, Galeria Vermelho), fotografias de Filipe Berndt

Série de 3 trabalhos em acrílico, que refletem quem observa a obra, em De repente a pauta que sustenta a escrita, estruturando-a na grade tipográfica, não é um suporte seguro. A linha de sustentação do texto se rompe, fazendo a frase despencar e se decompor em letras em queda. Sem a segurança da pauta, o mundo escrito desabaria? Na política das mediações verbais, além da atual disputa de significados e narrativas, a quebra da palavra – que é a metáfora dos textos de De repente – alude à fragilidade dos pactos feitos via texto: a Constituição, a lei, os contratos. 

18.8.20

Relógio, 2020

25 x 25 cm (políptico de 4 peças a ser instaladas, cada uma, em paredes ou salas/cômodos diferentes)
impressão digital sobre acrílico 3 mm de espessura
edição de 3 + p.a.
(clique sobre as imagens para melhor leitura)




Em Relógio, os sufixos que flexionam a conjugação dos verbos 'madrugar', 'amanhecer', 'entardecer' e 'anoitecer' circulam seus radicais. Ao redor do círculo, orbitam palavras-partículas que, ao acionar um dos sufixos, traçam uma reta, uma espécie de ponteiro virtual que as liga ao radical do centro, formando sentido: "papos madrugavam"; "nós amanhecíamos / se amanhecesse"; "em breve entardeceríamos"; "para que anoitecêssemos". 

O trabalho compõe um possível diagrama do modo mecânico como funciona a linguagem engatada à pessoa do discurso e à temporalidade. O tempo é ilustrado nos quatro verbos que pontuam o ciclo das 24 horas e que são impessoais, revelando um desvio metafórico da obra. Há também um desvio em "nós amanhecíamos / se amanhecesse", já que se fosse uma frase discursiva, e não um diagrama, o correto seria "nós amanheceríamos, se amanhecesse". O desvio duvida da concordância sintática da frase como única forma de representar o tempo.

O políptico deve ser instalado sempre com as quatro peças separadas, em diferentes paredes ou salas/cômodos, para que tempo e espaço também componham a fruição da obra.






16.8.20

Dançando só ao som da geladeira, 2018

59,4 x 42 cm
impressão offset sobre papel
edição de 1000 exemplares por plataforma par(ent)esis
cartaz constituinte do projeto Além da Página (clique aqui para acessar



Pós tanta coisa, 2020

vídeo em loop - 15 minutos
edição de 3 + p.a.
(coloque em full screen para melhor visualização)


'Pós tanta coisa' é a versão em vídeo da obra Letreiro Final, de 2018, clique aqui para acessá-la



Nesta obra, o texto é escrito apenas com as letras "a", "c", "e", "i", "l", "n", "o", "p", "r", "s", "t" e "u", que formam o título "Tropicália, ou Panis et Circensis". As fontes foram escaneadas da capa do LP Tropicália - de 1968, projeto gráfico de Rubens Gerchman - e compõem uma lista de "conceitos pós", reforçados pela configuração do texto em coluna, como um letreiro final pós filme. 

O trabalho trata da ideia de que escrever é sempre escrever através de algo - de um idioma, de um contexto, de uma época, de uma escolha política, de uma escolha estética, etc - como neste caso em que uma tentativa de listagem da atual distopia brasileira é escrita usando apenas as letras do título "Tropicália, ou Panis et Circensis", como uma forma de escrever sobre o hoje através de um marco histórico.
 

10.8.20

Encenação, 2020

72 x 4 cm
impressão digital sobre acrílico 10 mm
edição de 3 + p.a.





Por seu estranhamento como objeto, pelo tamanho de fonte bastante pequeno para a visão aérea do corpo em pé, e pela cor vermelho alaranjado - que dificulta a leitura mais do que o clássico texto em preto - a obra força que se abaixe para a leitura, ato que encena no espaço o que o texto diz.



28.7.20

Retrovisor, 2020

8 x 19 cm
aço inoxidável escovado e gravado por eletrocorrosão
edição de 3 + p.a.

(clique sobre as imagens para aumentá-las)






Sobre a palavra "retrovisor" gravada em superfície polida, está gravado em baixo relevo um jogo entre "meus olhos" e "teus olhos" - o segundo, invertido e cedendo seu "s" final a "meus olhos", como olhares que se cruzam na letra do plural. Ainda em baixo relevo, no canto superior direito está "século xxi" também invertido, como o reflexo de uma paisagem onde se acabou de passar. A metáfora visual coloca a primeira pessoa - "meus olhos" - como condutora de um veículo que vê o reflexo de alguém no banco de traz, em meio à paisagem de um "século xxi" visto como uma contraditória volta ao passado.

Abaixo, imagens simuladas para melhor visualização e com a obra traduzida para o espanhol, francês e inglês.





6.3.20

Estêncil, 2020

acrílico branco 10 mm cortado a laser
8 x 15 cm (lágrima) e 8 x 20 cm (prismática)
edição de 5 + p.a.






Frase retirada da música “Louco por você”, de Caetano Veloso, “Lágrima Prismática” é recortada em duas placas de acrílico branco. Em dois pregos com distância vertical de 10 cm, as placas são penduradas pelos acentos na sílaba tônica de ambas as palavras. O jogo de apoio e equilíbrio entre as placas “lágrima” e “prismática” é contingente, um arranjo de configuração aberta a ser definido por qualquer um (como nas três possibilidades de arranjo, nas imagens acima). 

A relação física entre as placas é análoga à relação sonora que as duas palavras travam entre si, o que arranja o ritmo poético equilibrado de “lágrima prismática”: ambas as palavras são proparoxítonas com sílaba tônica de vogal “a”, e esse espelhamento pontua o equilíbrio sonoro geral; as consoantes das sílabas tônicas são sequenciais no alfabeto, "l" e "m"; as únicas vogais do enunciado são “a” (vogal tônica) e “i” (átona), em uma distribuição simétrica e alternada; os encontros consonantais “gri” e “pris”, com seus "r" tremidos e "i" átonos, são uma segunda pontuação sonora espelhada em relação às sílabas tônicas, como sons de um instrumento secundário, e estão sempre entre sons de “a” e antes de “ma”; a única sílaba soprada, “pris”, está no meio exato do enunciado, dividindo o espelhamento de “a/i/a”. 

Tais padrões sonoros se repetem também no plano visual no qual o olho percebe a padronização baseada na sequência de letras "a" e "i" que, ao se repetirem, criam uma espécie de textura visual geral.

O título, Estêncil, refere-se a essa cadeia de repetições – reproduções – sonoras de “Lágrima Prismática”, e ao fato de qualquer um poder ajeitar o equilíbrio das placas na parede, como alguém que ajeita um estêncil para poder reproduzir um texto em forma de picho.