1.7.17

Sebo Encanto Radical, Coleção Farsa e Tragédia, 2017



Farsa e Tragédia, terceira coleção do Sebo Encanto Radical, é formada por livros que documentam fatos ou períodos pontuais da história que – infelizmente – são recorrentes e cíclicos, muitas vezes estruturais. Daí o título da coleção, referência à frase de Karl Marx: "a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa".

O primeiro título da coleção é o livro Brasil: Nunca Mais, lançado em 1985. Relato sobre o terrorismo de Estado da ditadura civil-empresarial-militar instaurada no Brasil com o golpe de 1964, o livro é uma espécie de resumo, ou reportagem, do Projeto de Pesquisa: Brasil Nunca Mais, que de 1979 a 1985 pesquisou processos de cunho político que passaram pela Justiça Militar entre 1964-79, em um total de mais de um milhão de páginas.

A tortura é o tema central de Brasil: Nunca Mais. O livro inicia com uma série de trechos de depoimentos através dos quais fica clara a máquina estatal de tortura implantada pelo regime, que contou com fatores como a conivência do Poder Judiciário que encobria e legalizava o terrorismo de Estado, ou como o sadismo dos agentes da tortura, de policiais, carcereiros e delegados a médicos e enfermeiros, que controlavam cientificamente a tortura e assinavam laudos falsos – como no já clássico caso do “suicídio” de Vladimir Herzog. Distribuídos pelos capítulos, há ainda: uma breve análise mostrando o quanto o autoritarismo militar é algo recorrente na história do Brasil, envolto sempre pela eterna subserviência aos EUA na geopolítica do continente americano; um mapeamento dos movimentos de resistência e guerrilha, oriundos quase todos de dissidências do PCB e do PC do B; um levantamento das atividades mais perseguidas pelo terrorismo de Estado, como militares legalistas (logo após o golpe), jornalistas, estudantes e sindicalistas; relatos sobre desaparecidos políticos que, em depoimentos à Justiça Militar, são citados por outros torturados que afirmam tê-los visto pela última vez nos lugares de tortura; etc.

Em tempos em que novamente nossas oligarquias econômicas reafirmam sua tendência golpista e autoritária, como no golpe de estado parlamentar-jurídico-midiático de 2016 contra a presidenta Dilma Roussef, (re)ler Brasil: Nunca Mais ajuda a relembrar o quanto o Brasil nunca foi uma democracia real, no máximo teve períodos de democracia formal. Aliás, ajuda a concluir que no Brasil "democracia" é uma palavra branca e de classe média e alta, pois abordagens arbitrárias; proibições sem fundamento legal; negação de defesa; assassinato em massa, tortura e desaparecimento de pessoas pela Polícia Militar – tão comuns e oficializados nos anos de ditadura e relatados em Brasil: Nunca Mais – continuam acontecendo no país, de forma perversa e naturalizada, nas classes pobres e sobretudo com a população negra.



No Sebo Encanto Radical, os exemplares de Brasil: Nunca Mais vêm com a gravura da coleção Farsa e Tragédia já na folha de rosto (imagens acima) e ainda com a marca do sebo, a traça de livro, em uma página interna. Instalada no miolo, há ainda uma brochura com um texto – do meu livro Não, editado pela Ikrek – que fala sobre a proibição de toda e qualquer atividade tipográfica, de ter e de editar livros, no Brasil colônia, proibição revogada apenas com a fuga da Família Real para Rio de Janeiro, em 1808  revogação essa mais para atender uma demanda de impressos burocráticos, já que a administração do império português havia se instalado no país, do que por demandas intelectuais ou se circulação de informação. Este texto é referenciado, em notas de rodapé, pelos artigos do decreto presidencial que em 1970 instaurou a censura no país, colocando assim em perspectiva o autoritarismo da ditadura civil-empresarial-militar pós 1964 com o da nossa colonização, em um panorama que mostra o quanto o autoritarismo – entre outras patologias ético-morais – é estrutural no país.